jusbrasil.com.br
28 de Maio de 2017

Dr. Google não cobra consulta: concorrente na advocacia?

Camila Lima, Advogado
Publicado por Camila Lima
há 2 anos

Dr Google no cobra consulta concorrente na advocacia

“Drª, não precisa mais não (da consulta agendada)! Já tô vendo aqui no Google (a resposta).” Um certo cliente ao telefone

Tenho 37 anos, advogo há treze e ainda somo à minha experiência mais três anos de estágio. Durante estes respeitáveis 16 anos, tenho colecionado algumas pérolas vindas de clientes e de outros potenciais.

Recentemente, um cliente daqui de São Paulo, residente em outro Estado, me ligou pedindo um auxílio a respeito de uma causa dele com contratação de advogada local: ele foi intimado a comparecer em uma audiência conciliatória aqui em SP e como não teria “sentido firmeza” na orientação de sua advogada, “bateu uma dúvida” e me ligou para eu esclarecer. Detalhe: ele veio com um longo questionário e eu deveria, em tese, não apenas prestar uma simples informação, mas uma consultoria completa e vasta. Ora vejam, então a advogada contratada no outro Estado recebe os honorários, mas quem trabalha sou eu... Sem receber?

Esta pérola já bastaria, não? Agora, Doutores, concorrer com o Google?! Outra pérola...

Um certo cliente ligou, adiantou o assunto, conversamos brevemente, a consulta foi agendada e, de repente, “Drª, não precisa mais não (da consulta agendada)! Já tô vendo aqui no Google (a resposta).”

Quanto ao caso do cliente que quis se beneficiar da minha consultoria sem pagar por ela consegui sair da saia justa com elegância e ninguém saiu ferido, digo, prejudicado. Até porque pela questão ético-profissional não poderia, por preço nenhum, atendê-lo nas condições que ele pretendia.

Mas concorrer com o Google? Sério! Eu que sempre encontro uma saída diplomática e assertiva para as saias justas, confesso que ainda estou pendurada ao telefone em estado de choque (só que o cliente já desligou).

Moral da história, segundo a minha versão dela: ninguém trabalha sozinho. Explico.

Pra tudo, eis o Google! Será?

Clichê: vivemos na era da informação. É informação por todos os poros, a mente leva um tempão pra relaxar antes de dormir. A gente fica até tonto com tanta notícia, oferta imperdível de tudo; esperam que estejamos por dentro de tudo o que acontece no Direito, na política, economia, tecnologia e inovação, saber diferenciar curdos, xiitas e sunitas, e ainda opinar sobre todos os assuntos sendo coerentes, simpáticos e politicamente corretos ao mesmo tempo.

E vamos combinar que não é lá tarefa difícil, pois basta pesquisar no Google e você saberá imediatamente quem foi Luiz Gonzaga Pinto da Gama, do que trata o Projeto de Lei 166/2015 e até se é necessário ter advogado na audiência de conciliação na Justiça ou se você pode cancelar a compra feita pela internet e ter o dinheiro pago de volta.

Informação x Conhecimento: 5 anos de dedicação ao estudo, no mínimo.

Usei como exemplo o cliente que consultou com o Dr. Google para ilustrar a diferença entre informação e conhecimento. O que as pessoas ainda não se deram conta é que ter informação só, às vezes não basta. É preciso ter conhecimento.

Descobrir se a pessoa pode reaver o dinheiro pago em produto adquirido pela internet em caso de cancelamento da compra em 7 dias é uma coisa. Mas quem conhece o Direito é o advogado: o artigo de lei que regula o direito de arrependimento; quando deve ser exercido este direito; prazos; marketing agressivo; comércio eletrônico; direitos anexos; grau de vulnerabilidade; resolução do contrato por vício de fornecimento; condições da compra; como tem sido o entendimento jurisprudencial; tipos de interpretação dos artigos de lei e seu escopo, enfim, cada um destes e de outros conceitos é conhecido pelo profissional do Direito, que sabe tecnicamente aplicá-los ao caso concreto e orientar a conduta do cliente e gerir o processo.

Portanto, o Google não substitui o conhecimento, o estudo, que requer tempo, dedicação, ler de novo e de novo até entender, conhecer todas as teses, atualização legislativa e jurisprudencial, conhecer o momento oportuno para não perder uma chance, escolher a dedo as palavras, revisar o texto para não escrever ‘mandato’ ao invés de ‘mandado’ (ou vice-versa), interpretar cada documento probatório, conhecer peculiaridades de cada área do Direito, conhecer a rotina do sistema, adivinhar o que pensa o juiz e mais: ser responsabilizado por erros cometidos em detrimento do interesse do cliente. Já pararam para pensar nisso?

Mas aí, você pode questionar: "mas disso eu, que sou advogado, já sei". Não é bem assim. Muitos advogados ainda não possuem esta consciência e é preciso conhecer esta realidade para saber se comportar perante o cliente na hora de cobrar os honorários.

Cultura da cobrança por consulta jurídica: comece já!

Por se tratar de uma carreira técnica que requer expertise na área de atuação, o advogado se assemelha ao médico.

Quem confiaria num oncologista particular que em uma consulta não cobra por ela? As pessoas submeteriam um tratamento contra um câncer às informações do Google? Não, pois não há fundamento, técnica, profundidade na análise, além disso cada caso é um caso, guarda uma peculiaridade.

O mesmo deve ocorrer quando uma pessoa pretende esclarecer com clareza e transparência sua dúvida acerca de um suposto direito seu. Ela deve buscar um especialista no assunto para obter um pouco da técnica. Então, por que fazer isso sem cobrar?

Houve um tempo em que advogado não cobrava a consulta e mesmo assim era valorizado e respeitado em razão da honra em sua atuação. Só que hoje, com a oferta (de advogados no mercado) maior do que a demanda, a concorrência entre os advogados aumentou assustadoramente fazendo com que muitos advogados não cobrem, temendo o desvio de clientela a outro escritório que não cobra pela consulta.

Só que tudo isso não se trata de preço apenas, trata-se de valores tais (e já abordamos isto no blog Compondo os honorários #1 e Compondo os honorários #2) que nem todos os profissionais possuem e por isso mesmo é hora de destacar o seu valor e o seu diferencial.

Aqui deixo um comparativo. Na terça-feira última liguei para agendar uma consulta num reumatologista particular aqui em SP: R$ 1.200,00 (mil e duzentos reais). Não pude me beneficiar do conhecimento deste profissional; vivo minha realidade. Também não dá pra sugerir que se cobre neste patamar, mas há que ser cobrado um preço justo pela consulta jurídica.

"Uma andorinha só não faz verão, mas pode acordar o bando todo." (Binho, poeta paulista)

Mas eu disse há instantes que a moral da história (segundo a minha versão dela) é que ninguém trabalha sozinho. Por quê? Trata-se de uma das vertentes da campanha da valorização da profissão a luta contra o aviltamento dos honorários. Uma campanha em que todos devem se conscientizar do seu valor e iniciar uma nova era, criando a cultura de cobrança pela consulta até incutir no espírito das pessoas (leia-se, consumidores) como sendo algo tão natural quanto pagar pela consulta médica.

O Google não esclarece todas as dúvidas do cliente, não vai ser contratado pelo escritório para ir realizar uma diligência, não vai despachar com o desembargador, fazer defesa oral, ou seja, o advogado é essencial e especial por seu conhecimento técnico; não há razão para não se cobrar (e bem) por tudo. É certo que não será de um mês para outro, é uma medida de longo prazo, mas é uma mudança que certamente levará ao dia em que aquele que não cobrar honorários por consulta será visto com reservas e preterido àquele que cobra.

O profissional que não cobra adequadamente por seus serviços e pela hora da consulta, poderá até 'perder' clientes para outro que não cobre corretamente, mas como tudo tem um preço, a má gestão da carreira também trará consequências e os clientes que um dia foram contratar no 'mais barato' retornará perdedor ao seu escritório e neste dia, haverá de saber que a qualidade é lembrada por muito tempo depois que o preço é esquecido.

Conclusão: informação com conhecimento técnico é prestação de serviço. Se um cliente desejar receber orientação, ter algum conhecimento sobre seus direitos, conselho profissional etc., deve contratar um advogado, pois sem ele, não há Google que lute por seus interesses e o advogado que não cobra sofrerá as consequências de sua transigência inconveniente, afinal, a saúde financeira de um advogado ou de seu escritório depende dos honorários que recebe.

Disponível em: http://camiladasilveiralima.jusbrasil.com.br/artigos/258276101/dr-google-nao-cobra-consulta-concorrente-na-advocacia

34 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

Cara Camila,

Me permita fazer umas considerações tendo em vista a minha experiência com estes assuntos. Inicialmente eu sou, pelo menos por enquanto, "computeiro" (fiz Informática). Você já pediu para alguém arrumar o seu computador "na faixa"? Irmão, namorado, sobrinho, vizinho, etc? Pois é, se não fez saiba que a maioria das pessoas fazem, tanto que surgiram camisetas do tipo "eu não irei consertar o seu computador", dentre outras bem interessantes.

Creio que a sua visão sobre o uso do Google pelo seu cliente está equivocada. O buscador do Google é formalmente chamado de indexador, ou seja, podemos pensar nele como um robô "fazedor de índices". Temos índices em livros e em bibliotecas (aquele armário, nas mais tradicionais) faz décadas e estes são atualizados respectivamente pelos editores dos documentos (editoras, ou quem o escreveu) e pelos bibliotecários (que fazem o catálogo).

É óbvio que a edição de um livro ou artigo cientifico é infinitamente mais formal do que todo o lixo que tem no Google, em volta de outros dados (uns bastante úteis ne outros extremamente irrelevantes) - que inclui o conteúdo de muitos livros -, de muito conhecimento tangíveis de adquirir e algumas informações. Veja, são três conjuntos: dados > conhecimento > informações sendo que o que o menor deles é a informação, ou seja, o que é realmente útil para os fins aos quais se deseja atingir em determinado momento. Dizem por ai que sorte é oportunidade mais conhecimento, e se pensarmos em conhecimento como habilidade para relacionar dados, então a sorte é simplesmente o casamento entre a necessidade de uma resposta e a posse dos dados que podem compor a mesma, por alguém que tem formadas as regras de relacionamento, num determinado instante. O "sortudo" terá a informação que necessita!

A diferença entre o Google e a biblioteca é que o primeiro é bem pouco criterioso, mas rápido e disponível em qualquer parte do mundo que tenha acesso à Internet livre, embora deva ser filtrado e não tenha o conteúdo de muitas publicações não tão públicas assim.

Então o seu cliente foi à biblioteca e resolveu o problema dele, e este problema nem deveria ser tão complexo, pelo menos dentro do que ele precisava, pois aparentemente conseguiu a informação para resolve-lo. Existe um engano geral da nação de que se você jogou o chapéu para cima no dia da formatura, então sabe tudo sobre aquela área, senão sabe nada, e isto é um engodo. Por isso faço minhas as palavras do professor Pierluigi Piazzi: "quem entra em uma universidade já deve chegar lá um autodidata". Não creio que seja produtivo ficar pasmo com alguém que aprendeu por si.

Quanto ao trabalho de graça, concordo. Tem que impor limite! Eu mesmo, que sou bonzinho demais, ando me policiando para fazer uns cortes no pessoal. Às vezes ainda caio em pecado, mas ando me rebelando... continuar lendo

Sou advogada e me socorro com o Google sempre que necessário. Ganho dinheiro e muito nas ações que patrocino contra as ricas seguradoras e não me importo nem um pouco se o meu cliente faz uso do Google para conhecer seus direitos. O Google não irá ingressar com ação alguma nem aguardará por longos anos as chicanas das rés. Se puder ajudar alguém orientando-o sempre que o mesmo não tenha condições de me pagar não acredito que esteja aviltando a advocacia mas sim mostrando que em seus quadros existem muitos profissionais que não se preocupam apenas com seus interesses mas sim em PROMOVER A JUSTIÇA! continuar lendo

Perfeita colocação, Dr. continuar lendo

Maldita reserva de mercado!

Não sou advogado, sou engenheiro e também tenho um conselho o CREA, que embora menos restritivo que a OAB, é bem feudalista.

Qual o problema com o autodidatismo?

É irracional que o CREA impeça que um engenheiro mecânico, com experiência na área de estruturas, baixe uma norma no site da ABNT e projete uma coluna de um edifício (competência restrita a engenheiros civis) cumprindo os requisitos da norma sem ser processado.

Da mesma forma, porque um professor de português, com toda a capacidade para interpretar textos não poderia ler as leis e jurisprudências (conhecimento público) e traduzir para uma linguagem que o cliente possa entender.

Muitas vezes o que as pessoas querem em relação ao direito não é o ajuizamento de ações, querem: evitar o cometimento de transgressões/crimes/improbidade no exercício de suas funções; saber de direitos que tem; confirmar o mérito de uma situação que estejam vivendo. E, desculpe-me, para tudo isto uma boa leitura pode ser suficiente, e até mais oportuno que uma consulta ao advogado (necessita agendar).

Lembro que deixar as pessoas terem liberdade para procurarem seus caminhos não acaba com as profissões de advogados ou engenheiros. Estes apenas terão de ser mais eficientes para conviver num mercado em que seus conselhos não usem de coerção para fazer as pessoas "precisarem" dos seus serviços mais do que realmente precisam. continuar lendo

Sem dúvda, Dr. A crítica não foi ao Google e sim ao comportamento de alguns clientes que desdenham do zelo profissional e desvalorizam o advogado que cobra pela consulta. Mas com certeza, cada caso é um caso. continuar lendo